PRÓLOGOS OFICIAIS DO KOF 2003: ADELHEID BERNSTEIN

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A paisagem daquela histórica cidade europeia combinava perfeitamente com ele.
Cabelos prateados. Pele pálida. Corpo esguio e bem proporcionado. E olhos vermelho-rubi.
A forma como ele esperava o bonde, sem saber exatamente onde olhar, fazia com que parecesse um jovem nobre distraído em seus pensamentos.
(… Acho que me perdi.)
Por trás da aparência refinada, o rapaz estava completamente desorientado naquela cidade desconhecida.
Mas, curiosamente, isso não o preocupava. Não lhe trazia ansiedade nem medo.
Na verdade, ele parecia até estar se divertindo com a situação.
Ele não costumava ser do tipo aventureiro. Mas havia algo sobre estar em uma cidade desconhecida que tornava tudo mais excitante.
— Se você estiver indo para o centro…
— Hã?
Um homem ao seu lado falou de repente.
Era alto, de ombros largos, com um peito robusto e uma postura firme e inabalável… e tinha apenas um olho.
— Se você estiver indo para o centro da cidade, basta pegar o bonde daqui.
Ele explicou de forma direta e concisa.
— É sua primeira vez por aqui, não é?
— Sim.
— Eu imaginei. Seu hotel fica em frente à prefeitura, certo?
— Isso mesmo. Mas como você sabe?
Com as mãos ainda nos bolsos do casaco, o homem respondeu calmamente:
Ele percebeu que o jovem lia as placas em inglês em vez de polonês.
Que seu olhar vagava de um lado para o outro, observando os prédios ao redor.
E que, pelo seu modo de se vestir, não parecia alguém que se hospedaria em um hotel barato.
— Impressionante sua capacidade de observação. Você é um detetive?
— Algo parecido. Bem-vindo à Polônia, senhor…
— Não precisa me chamar de “senhor”. Eu… meu nome é Adelheid.
O jovem estendeu a mão, com um leve tom de constrangimento ao se apresentar.
— Me chame de Bechstein.
Ambos se cumprimentaram. A mão do homem de um olho só era forte como pedra, robusta e calejada. E tinha um leve cheiro de pólvora e sangue.
— Parece que você não gosta muito do seu nome.
Bechstein comentou, sem sorrir, mas transmitindo uma presença magnética que fazia com que as pessoas se abrissem para ele.
Adelheid, que normalmente era reservado, se pegou falando mais do que de costume.
— Meu pai queria uma filha. Ele já tinha escolhido um nome antes mesmo de eu nascer. Quando descobriu que eu era um menino, simplesmente decidiu manter o nome mesmo assim.
— E você queria mudá-lo?
— …Não. Hoje já estou acostumado. Mas toda vez que conheço uma pessoa nova, acabam assumindo que minha irmã e eu somos duas irmãs. Explicar isso toda vez é cansativo.
— Entendo como se sente. Minha filha… bem, minha filha adotiva, tem um nome que pode soar um pouco masculino em alguns lugares. Mas, ao contrário de você, ela não liga nem um pouco para isso. Na verdade, ela não se preocupa com aparência ou formalidades. É uma garota bem séria.
— Perdão pela pergunta, mas… e sua família?
Na Polônia, em dezembro, mesmo durante o dia, as temperaturas ficavam abaixo de zero.
Adelheid percebeu que, por um instante, a respiração de Bechstein parou.
— Eu tinha uma esposa e uma filha. Mas elas morreram há muito tempo.
— Eu lamento…
Por um momento, os dois ficaram apenas observando a cidade antiga e suas ruas de paralelepípedos perfeitamente preservadas.
Essa era uma cidade que havia sido destruída em várias guerras, mas sempre renascia das cinzas como uma fênix.
Agora, no entanto, não restavam vestígios desses tempos turbulentos.
A paisagem pacífica e monótona parecia ter sido mantida assim por anos.
— Minha filha… a que faleceu… tocava piano muito bem. Ela sempre tocava para mim.
— Que tipo de música?
— Nunca fui bom com nomes, mas lembro que era uma peça de Chopin. Uma bem intensa…
— O “Estudo Revolucionário”?
— Acho que sim. Ela era uma garota tranquila, mas, por algum motivo, adorava essa música.
— É uma composição polonesa.
— Mesmo?
— Dizem que Chopin escreveu essa peça lamentando a ocupação da Polônia pela Rússia.
— Não fazia ideia…
O bonde parou na frente deles.
Passageiros desceram, soltando fumaças brancas pelas narinas devido ao ar gelado, enquanto outros embarcavam.
O veículo partiu novamente, deixando os dois para trás.
— Passei anos lamentando a morte da minha esposa e filha…
Bechstein soltou um longo suspiro.
— Mas agora percebo que nem mesmo sabia coisas básicas sobre elas. Nem sequer sabia o motivo pelo qual minha filha gostava tanto daquela música.
— …
— Me pergunto se eu realmente tinha o direito de sofrer por elas. Afinal, quando estavam vivas, eu mal passava tempo em casa por causa do trabalho.
— Ter uma família não significa necessariamente que você os conhece bem.
Adelheid olhou para o céu congelante.
O azul intenso do inverno parecia infinito, quase afiado como gelo.
— Até hoje, eu não entendo meu pai. E também não gosto dele. Minha irmã diz que me respeita como irmão, mas às vezes sinto que, no fundo, ela me despreza.
— …
— Eu vivo tentando escapar dos laços de sangue que me prendem… mas, no fim, nunca consigo. Só fico parado, sem saber para onde ir.
— Todos sentem isso quando são jovens.
— Será mesmo…?
Alguns pombos pousaram perto deles, bicando algo no chão antes de alçarem voo novamente.
Ao longe, sinos de igreja começaram a tocar.
— Você está aqui a turismo?
— Não. Vim buscar algo. Estamos construindo um “navio”, e ele já está quase pronto. Meu pai conhece o dono de um estaleiro aqui da Polônia.
— Um navio? Que refinado. Vai voltar para casa com ele?
— Sim, é o plano.
Outro bonde chegou.
— O sétimo ponto depois deste é a prefeitura. Se descer lá, será fácil se localizar.
Bechstein se virou para ele.
— Boa viagem, Adelheid. Foi um prazer conhecê-lo.
— O prazer foi meu.
— Ah, e mais uma coisa… meu nome real não é Bechstein. É um nome falso, usado por causa do meu trabalho.
O homem fez uma pausa antes de continuar.
— Como você deve ter suspeitado, meu trabalho é um tanto… perigoso. Espero que não se importe.
— …E tem certeza que deveria estar me contando isso?
— Meu verdadeiro nome é Heidern. Agora sim, é um adeus definitivo.
— … Cuide-se.
Adelheid embarcou no bonde e encontrou um assento vazio.
Olhou pela janela, tentando encontrar Heidern.
Mas ele já havia desaparecido.
※ ※ ※
Em um enorme estaleiro, uma gigantesca estrutura semelhante a um balão preenchia quase todo o local.
Operários ainda trabalhavam, mas o serviço já estava quase finalizado. Máquinas e guindastes estavam sendo recolhidos.
Era um dirigível.
O maior da história, com mais de 400 metros de comprimento.
Adelheid o observava em silêncio, até que uma jovem o chamou.
— Demorou, irmão.
— Me perdi um pouco no caminho. Está tudo pronto, Rose?
— Perder-se não combina com você. Se tivesse nos avisado, teríamos mandado alguém buscá-lo.
— Às vezes se perder pode ser divertido.
— Você acha?
— Sim, acabei conhecendo alguém interessante.
— Você? Interessado em outra pessoa? Isso é raro. Quem era?
— Um militar, ao que parece.
— O quê?! Um soldado? Que nojo!
Rose fez uma expressão de puro desdém.
— Não devia sequer falar com esse tipo de gente!
Adelheid respirou fundo.
Sua irmã lembrava muito seu pai.
Mas, como sempre, ele simplesmente cedeu.
— Esqueça. É verdade, eu errei.
— Que bom que reconheceu.
Ele mudou de assunto.
— E o piano? Ele chegou hoje de Viena, certo?
— Sim! Já foi instalado e afinado.
O rosto de Rose se iluminou de empolgação.
— Finalmente poderei tocar acima das nuvens! Algum pedido especial?
Ele já sabia a resposta, mas fingiu pensar.
— Que tal Chopin? O “Estudo Revolucionário”. Você pode tocar?

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