Raios cortavam o céu com fúria. O chão estava seco, rachado. O fogo consumia o todo.
E, no centro de tudo, estava Orochi.
Mas, nos pesadelos de Chizuru Kagura, a imagem que sempre aparecia não era a dele.
Era a do “Vento Furioso”.
Goenitz.
Um dos Quatro Reis Celestiais de Orochi. Morto há anos.
Ele surgia de formas diferentes.
Às vezes, com um sorriso cruel.
Outras, sem nenhuma expressão.
E em outros momentos, esboçava um sorriso gentil, como um religioso misericordioso.
Mas, logo em seguida, a cena sempre mudava para a morte brutal de sua irmã.
Ela via o corpo da irmã destroçado pelo vento impiedoso.
Via a si mesma, ajoelhada, tremendo de impotência diante dos restos de Maki.
Sempre o mesmo sonho.
Sempre a mesma dor.
O fim era sempre igual.
O corpo de Maki se despedaçava no ar, reduzido a pequenos fragmentos que caíam aos pés de Chizuru.
Ela tentava pegá-los, juntar cada pedaço, desesperada.
Mas eles escorriam por entre seus dedos, escapando de suas mãos como areia fina.
Então, uma sombra densa se projetava sobre ela.
Um calafrio percorria sua nuca.
A voz de Goenitz soava próxima demais.
— Irmã… me ajude…
Chizuru acordou.
Mas não se levantou num sobressalto, nem ofegou como alguém que sai de um pesadelo.
Ficou ali, imóvel. Tremendo.
Ainda podia sentir o medo preso em sua garganta.
O pedido de ajuda que escapou de seus lábios não era de uma guerreira pronta para lutar, mas de uma garota indefesa chamando pela irmã.
Ela sempre despertava naquele exato momento antes do fim, antes de tudo acabar.
Já tinha tentado superar isso antes… mas talvez fosse impossível.
Tentou reorganizar os seus pensamentos enquanto respirava com dificuldade.
Mas… até que ponto aquilo foi apenas um sonho?
O que foi memória? O que foi ilusão?
Ela própria não conseguia distinguir.
O fato era que Maki estava morta.
E ela estava viva.
E esse pensamento a consumia.
Até onde iam os delírios de sua mente?
Ao lado de sua cama, Chizuru se deparou com Maki sentada.
Com as mãos delicadamente sobre os joelhos, sua postura era impecável, sua presença solene e bela.
Havia algo nela que parecia inatingível.
Uma perfeição quase sobre-humana que, às vezes, fazia Chizuru hesitar em tocá-la.
Sempre foi assim.
Eram gêmeas, mas Chizuru sempre se apoiara na irmã.
Era Maki quem tinha a força para liderar.
— Você finalmente acordou.
— Eu… tive um sonho. Um longo e estranho sonho.
— Você estava se mexendo muito. Parecia estar sofrendo.
— Sonhei que você morria. (Mas ela realmente morreu, não foi?)
— Mas eu estou aqui. Sempre estive. (Então minha irmã não morreu…)
— Mas… eu vi tudo no sonho. (Ela está viva.)
A mente de Chizuru oscilava.
O que era sonho? O que era real?
Mas, aos poucos, uma determinação crescia, dominando cada vez mais a sua mente.
Ela precisava proteger.
A qualquer custo.
De qualquer inimigo.
— Irmã… você vai lutar ao meu lado?
— Sempre. Contra quem?
— Contra… nossos inimigos.
※ ※ ※
— Finalmente… consegui.
No interior de uma sala escura e úmida, uma mulher limpou o suor da testa.
Dias seguidos de rituais haviam drenado suas forças.
Seus olhos estavam fundos, seu rosto magro.
(Subestimei ela… mas não é à toa que a chamam de “guardiã”…)
Fios invisíveis se estendiam de seus dedos.
Iluminados pelo fogo do altar, criavam reflexos pálidos no escuro.
Mas… será que alguém ali conseguia vê-los?
Para aquela mulher, os fios eram reais.
Cambaleando, ela aceitou a água que lhe ofereceram e bebeu tudo de uma vez.
O líquido refrescava sua boca seca, mas a exaustão não diminuía.
(Talvez Mukai-sama esteja certo… se as duas irmãs Yata ainda estivessem vivas, eu não teria chance…)
Mas isso já não importava.
O ritual estava completo.
Agora, Chizuru agiria por vontade própria.
Ou melhor… pela vontade deles.
Chizuru Kagura se tornou apenas mais uma peça no tabuleiro.
— Eu preciso descansar. O resto fica com vocês.
Ela devolveu o recipiente e saiu, com passos pesados e lentos.
Não havia pressa. Agora, lhes restava esperar.
※ ※ ※
Dentro de si, Chizuru lutava desesperadamente contra algo que tentava dominá-la.
Maki estava ali, diante dela.
Uma parte sua queria aceitar a irmã.
A outra… rejeitava.
Seu coração queria acolhê-la.
Mas seu dever como líder da família Yata a obrigava a afastá-la.
Então, Maki desapareceu.
— Tem alguém aí…?
Forçando a voz, Chizuru pressionou suas têmporas, apoiando-se na mesa com o cotovelo.
A dor de cabeça latejante e o frio na espinha a impediam de se mover.
— A senhorita me chamou?
— Quero que encontre Kyo Kusanagi e Iori Yagami.
— …Isso vai ser difícil.
— Diga que é um pedido da líder da família Kagura. Não, diga que é uma ordem oficial.
O tom firme e incomum de Chizuru fez com que seu funcionário compreendesse a gravidade da situação.
— Entendido. Providenciarei imediatamente.
Os passos do subordinado se afastaram, ecoando pelo corredor.
A mansão era grande demais.
O silêncio absoluto era tão profundo que parecia um zumbido em seus ouvidos.
(Não sei por quanto tempo ainda vou ser eu mesma…)
Chizuru fechou os olhos e tentou se concentrar.
Mas, quanto mais tentava se firmar, mais forte era a dor.
Uma dor insuportável, como se algo estivesse tentando esmagar sua mente.
(Eu não posso sucumbir… pelo bem da minha irmã… mesmo que ela esteja morta.)