“Pai, estamos sem dinheiro.”
“Eu sei.”
“Pai, o arroz acabou também.”
“Eu sei! Agora comam logo!”
No centro da sala, estava uma pequena mesa. Em cima dela, só uma tigela grande de sobá e nada mais.
Era isso que os três tinham para dividir. O vento gelado passava pelas frestas do dojô.
“Poxa… faz tempo que a gente não come um sobá com ovo…”
“Não reclama, Yuri. Ovo é só no Ano Novo e no Festival de Obon.”
“Que tristeza…”
“Terminando de comer, você vai pra estação distribuir panfletos e atrair alunos, entendeu?”
“Mais tristeza…”
“Ah, é mesmo. Cortaram o gás. Ryo, vai buscar lenha na montanha.”
“Sério…?”
“Pai… também cortaram a água.”
“Yuri, depois de distribuir os panfletos, vai lavar roupa no rio.”
“Por que eu nasci nessa família…?”
“Yuri-chan…? Yuri-chan?! Acorda!”
Yuri abriu os olhos bem na hora em que estava prestes a pegar um pêssego gigante que flutuava no rio.
Era só um sonho.
Ainda estava no dojô Kyokugenryu. Diante dela, um italiano charmoso a observava.
“Hã…? Robert…? Eu dormi?”
“E como! Você cochilou assistindo ao treino do seu pai com o Ryo. Como você aguenta? Esse dojô é um saco.”
“Eu só tava entediada…”
“Entediada? Como assim…? Ah, é verdade, os alunos fugiram de novo.”
O dojô estava vazio. Não que já tivesse sido muito cheio, mas agora parecia pior do que nunca.
“Meu pai e meu irmão exageram nos treinos.”
“Mas todo ano vocês entram no KOF, aparecem na TV, e um monte de gente se inscreve.”
“E 90% desiste no mês seguinte. Da última vez, um novo aluno chegou e foi direto pra corrida…”
“E…?”
“Nunca mais voltou. Simplesmente sumiu. Mandar alguém correr 16 km usando tamancos de ferro faz qualquer um fugir!”
“E aí, Robert. Veio visitar?”
Ao lado de Yuri, apareceu o seu irmão Ryo Sakazaki. Os três juntos formavam um grupo impressionante: o Dragão Invencível, o Tigre Mais Forte e uma jovem e talentosa lutadora.
“Fiquei sabendo que você assustou outro novato.”
“Eu não assustei ninguém.”
“Cara, pega leve. Nem todo mundo tem um corpo de outro planeta igual vocês.”
Robert falou, claramente se achando o único sensato ali.
“Não nos trate como alienígenas. O único doido aqui é o meu pai. Eu sou só um jovem bonito e de bom coração.”
“Exatamente!”
“…Tá bom, vou fingir que acredito.”
Robert pegou um envelope do bolso e mostrou para eles.
“Olha, eu tenho uma ideia pra melhorar as finanças do dojô. Prestem atenção…”
Era um convite para o próximo KOF. Mas Ryo e Yuri nem ficaram surpresos, já tinham recebido o deles.
“Dessa vez, precisamos investir na imagem do dojô.”
“Imagem?”
Robert começou a discursar:
“Sempre sorrir nas entrevistas.
Elogiar os oponentes derrotados.
Falar “Kyokugenryu” e “Dojô Sakazaki” o tempo todo.
Criar slogans como “a arte marcial para toda a família!” ou “uma técnica de luta para cada lar!”
E tem mais! Ryo, que tal costurar um anúncio no seu quimono?”
“Um anúncio do dojô?”
“Pode ser, mas também podemos conseguir patrocinadores! Lojas, bebidas esportivas…”
Yuri suspirou. Robert falava como se fosse um homem prático, mas era herdeiro da poderosa família Garcia. Nunca precisou se preocupar com dinheiro de verdade.
“Hmm… patrocínio? Parece uma boa.”
(Boa nada! Isso é um absurdo!)
Ryo, completamente ingênuo para negócios, concordou sem pensar duas vezes.
“Interessante… costurar propaganda no quimono…”
“Exato! O mundo moderno exige marketing…”
“Robert.”
Uma voz imponente interrompeu Robert.
Atrás dele, de braços cruzados e com um olhar severo, estava Takuma Sakazaki.
O mestre lendário, temido lutador e especialista em preparar sobá.
“Ah… mestre… err… veja bem…”
“Mas, pai, o Robert só quer ajudar a manter o dojô funcionando!”
Yuri tentou defender Robert.
“Hmpf! Um verdadeiro guerreiro não se preocupa com dinheiro!”
“Mas, pai, você vive reclamando da falta de grana! Até o dojô no México precisa de verba…”
“Chega! Se estão tão preocupados com dinheiro, então saibam disso: EU NÃO VOU PARTICIPAR DO KOF ESTE ANO!”
“O quê?! Você não vai?!”
“Isso quer dizer que…”
(Hah! Sem mim no time, eles vão implorar para eu reconsiderar!)
“Uhuuu! Finalmente estamos livres!”
“Isso aí! Sem supervisão!”
“Hã?!”
“Mestre, muito obrigado!”
“E-ei… mas… vocês vão enfrentar lutadores fortíssimos sozinhos…”
“A gente dá conta, pai! Pode deixar com a gente!”
“É isso aí! Esse ano vai ser demais!”
“Err… bem… então… boa sorte pra vocês.”
Uma semana depois, o comitê do KOF recebeu a notificação oficial: Takuma Sakazaki desistiu da competição.
Como presente de despedida, ele preparou um banquete de sobá para seus discípulos.

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