Era um lugar úmido, escuro e imenso, como uma caverna.
Mesmo olhando para cima, não dava para ver o teto.
O ar pesado parecia se acumular em camadas infinitas, e encará-lo por muito tempo dava a sensação de que você ia ser sugado para dentro.
As paredes pareciam apenas um monte de pedras empilhadas, mas, olhando de perto, dava para notar que cada rocha tinha sido cuidadosamente posicionada, sem deixar nenhum espaço entre elas.
No meio desse ambiente estranho, uma sala abrigava uma lareira acesa.
As chamas ardiam com força, lançando sombras trêmulas pelas paredes.
Diante do fogo, um gato preto estava sentado.
Atrás dele, uma mulher permanecia imóvel, de olhos fechados.
Fios finíssimos se estendiam de seus dedos até o gato.
Eram tão sutis que ninguém além dela poderia notá-los.
O gato começou a caminhar na direção das chamas.
Nem hesitou, nem se apressou — apenas avançou, um passo de cada vez, como se fosse movido por um mecanismo invisível.
— Isso mesmo… continue.
A mulher sussurrou.
O gato agora estava tão perto das chamas que seus bigodes quase queimavam.
Mas ele não reagia.
Na verdade, nem parecia perceber que estava sendo controlado por aqueles fios.
Ou melhor… seria possível que esses fios sequer existissem de forma material?
— Agora, vá.
No instante em que a mulher deu a ordem, o gato levantou a pata esquerda e a colocou dentro do fogo.
— !!
Mas, de repente, ele parou.
Seu corpo inteiro tremeu, como se estivesse preso em algo invisível, incapaz de se mexer.
— Vamos… mais um passo.
Desta vez, o gato pisou por completo nas chamas.
O cheiro de pelo queimado se espalhou pelo ambiente.
No silêncio absoluto da sala, só o estalar da madeira queimando acompanhava as faíscas alaranjadas que subiam no ar.
— Me obedeça… agora!
O gato preto, sem poder resistir, se jogou por inteiro no fogo.
Mas, no instante seguinte, algo aconteceu.
O gato deveria ter sido consumido pelas chamas, mas, em vez disso, virou pedra.
Uma estátua em forma de gato caiu no meio da lareira, espalhando cinzas e brasas pelo chão.
— Matar sem propósito não leva a nada.
— O quê?!
Uma voz grave ressoou atrás da mulher.
Um homem gigantesco estava ali.
Quer dizer… “homem” talvez não fosse a palavra certa.
Apesar da forma humana, sua pele brilhava como uma pedra polida e parecia tão resistente quanto metal.
Faíscas de eletricidade corriam por seu corpo, como relâmpagos em uma tempestade.
— Mukai-sama, você está aqui?
A mulher imediatamente se ajoelhou e abaixou a cabeça.
Mukai passou por ela sem dizer nada.
Ele enfiou a mão na lareira, pegou a estátua do gato e a ergueu.
Havia se tornado apenas uma pedra fria, sem nenhum traço de vida.
— Botan, e sobre o nosso alvo?
Botan — esse era o nome da mulher.
— Tudo está indo conforme o esperado. Mesmo sendo um dos guardiões, Yata é um artefato gêmeo incompleto.
Com um dos lados perdido, não será difícil encontrar uma brecha para agir…
— Estamos lidando com aqueles que selaram Orochi. Não os subestime.
— Eu sei.
Mukai observou a pequena estátua de pedra em sua mão.
— Não ache que será tão fácil quanto manipular um animal.
— Vou lembrar disso.
Botan havia conquistado sua posição graças ao seu poder especial — controlar os outros com fios invisíveis.
Ela não era uma simples humana, mas sim algo diferente.
Assim como Mukai, ela pertencia a um grupo que não era deste mundo.
Eles se referiam a si mesmos, em uma mistura de orgulho e autodepreciação, como “Aqueles do Passado”.
— Se você veio pessoalmente… significa que a convocação finalmente vai acontecer?
— Ainda não. Mas me diga, Botan…
— Sim?
— Você não está subestimando os humanos, está?
— …
Mukai a observava de cima, seus olhos brilhavam de maneira intensa, como se pudessem ver através dela.
— Você está pensando em controlá-los à força? Como fez com o gato?
— Isso não seria possível.
Botan explicou calmamente.
Mesmo que pudesse manipular humanos comuns, controlar completamente a mente de alguém ligado aos Três Tesouros Sagrados era outra história.
Mas… havia uma alternativa.
Ela não podia forçá-los a obedecer, mas podia “plantar ideias” em suas mentes.
Podia convencê-los de que algo precisava ser feito, que um dever precisava ser cumprido.
Assim, a vítima passaria a agir como Botan queria, sem perceber que estava sendo manipulada.
Acharia que estava seguindo sua própria vontade.
As contradições que surgissem seriam resolvidas pela própria mente do alvo, que reescreveria suas memórias e justificativas para se alinhar ao novo propósito.
Era um método muito mais eficiente do que tentar fazer um gato se matar.
— Os humanos são fracos.
Mukai disse depois de ouvir sua explicação.
— Os humanos são sujos. São tolos.
Ele jogou a estátua do gato no chão.
A pedra rolou até parar diante de Botan, o rosto congelado do gato exibia uma expressão de agonia.
— Os humanos são vis. Mesquinhos. Mas, às vezes… podem ser perigosos.
— Já ouvi esse discurso antes.
Mukai assentiu levemente.
Para ele, humanos comuns não eram uma ameaça.
Mas, em certas circunstâncias, podiam se tornar inimigos temíveis.
Alguns vendiam seus próprios filhos para sobreviver, enquanto outros sacrificavam suas vidas para salvar um estranho.
Eram seres contraditórios.
Podiam destruir uns aos outros com guerras sem sentido, mas também podiam se unir com uma força inesperada quando confrontados com uma ameaça maior.
Botan não entendia os humanos.
E, por isso, os desprezava.
Mukai também não os compreendia.
Mas, por esse mesmo motivo, os temia.
— Certo, entendido. Agora, mudando de assunto…
— O quê?
— Tem alguém no King of Fighters que chamou minha atenção.
— Kusanagi? Yagami? Ou aquele tal de K’?
— Nenhum deles.
Botan hesitou por um instante antes de continuar:
— Dizem que tem alguém… que usa chamas verdes.
— …!
De repente, a estátua do gato voltou à vida.
Com um salto ágil, o animal desapareceu na escuridão.
Botan, pega de surpresa, recuou instintivamente.
— Até um gato pode te pegar de surpresa, Botan. Imagine um humano…
— …
— Um usuário de chamas verdes? Certo, vou lembrar disso.